SP–Arte Rotas 2026: Entre sonhos, delírios e poéticas populares, uma seleção de artistas que deslocam o olhar para outras cenas da arte brasileira
Aos poucos, grande parcela da invenção que abriga o sonho e o delírio como potência de criação vem sendo revelada e retomada na arte brasileira. É um movimento que se abre à descentralização e encontra o artista nas encruzilhadas, fora dos polos metropolitanos e centros elitizados de formação, em fricção com linguagens e pensamentos diversos. Pensada à luz da psicanálise, essa “outra cena” também inclui a ideia de pensar para além do cânone no arco da história da arte. Podemos aqui adensar certa tradição delirante do sonho, do transe e de práticas diversas que se forjam como contraponto à escassez imaginativa.
Minha lista de dezoito presenças imperdíveis na SP–Arte Rotas — uma feira que dialoga muito com minha pesquisa e meu doutorado, que investiga poéticas ditas populares e delirantes. Indico aqui, então, dezoito momentos da feira que chamam a atenção, seja pelo apuro estético, pela apresentação de algo novo ou pela pesquisa que faz reverberar aparições sob outros prismas.
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- Errol Flynn Galeria de Arte com um solo imperdível de Antonio Poteiro, com pinturas raríssimas e mais antigas de sua produção. As esculturas e as pinturas com cores primárias retratam festas religiosas como as Cavalhadas, Folia de Reis, Carnaval, procissões e o cotidiano do interior de Goiás e também do Brasil todo.

Antonio Poteiro - As pinturas de Ju Cabeleireiro no estande “Novos para Nós”. Fiquei fascinada com a base das pinturas, que são latas de tintas abertas e usadas como tela, como se revelassem a aparição de cenas cotidianas irônicas desse universo popular.
- Na mesma toada e com um impressionante diálogo não premeditado, temos Dona Roxinha Lisboa, da Ilha do Ferro, com suas pinturinhas coloridas, também com cenas triviais e, assim como Ju Cabeleleiro, com frases que mais parecem “repentes”, estabelecendo uma relação muito singular com a palavra.
- Projeto ousado da Janaína Torres Galeria, apresentando o trabalho primoroso de Vivi Rosa pela primeira vez numa feira de arte.

Vivi Rosa, Manada (série Rebanho), 2025 - A sofisticada orientalidade de Rafael Kamada na Claraboia.
- O estande da Gomide, com uma conversa finíssima entre máscaras e pinturas de Nicolai Dragos.

Nicolai Dragos (Romênia, 1931-2020), Saídas Vigiadas [Guarded Exits], 1982 - O estande impressionante da Galatea, com o artista Zé de Cabeça, de Salvador, e o artista Romildo Rocha. Ambos trafegam pelas questões populares de formas distintas, ambos absolutamente brilhantes.
- As esculturas de Rafael Chavez na Boi Galeria.
- Hiram Latore na Martins e Monteiro: uma pintura com diálogo bonito entre a tradição e o frescor de um artista jovem extremamente talentoso.
- Gustavo Torrezan na Cerrado, com um trabalho profundo, crítico e na esteira de uma crítica que olha para o que Aline Figueiredo chamou de “bovinocultura”: o boi como essa figura que aglutina uma série de impasses trazidos pelo agronegócio e suas consequências.
- Michel Zózimo na Bolsa de Arte.
- Não canso de me espantar com o talento de Gustavo Diógenes na Leonardo Leal.
- Da mesma geração de outro grande pintor: Artur Bombonato na Marco Zero.
- Luciano Maia, apresentado pela MaPa Galeria.
- Pinturas-gato de Baravelli na Marcelo Guarnieri Galeria.
- Mateus Malizia, da Pilar Galeria, com um trabalho que dialoga com certa tradição formal, mas é também tropical em suas formas.
- Naira Penachi na Paulo Darzé Galeria.
- Zé Carlos Garcia na Portas Vilaseca.
- Errol Flynn Galeria de Arte com um solo imperdível de Antonio Poteiro, com pinturas raríssimas e mais antigas de sua produção. As esculturas e as pinturas com cores primárias retratam festas religiosas como as Cavalhadas, Folia de Reis, Carnaval, procissões e o cotidiano do interior de Goiás e também do Brasil todo.
SP–Arte Rotas: Uma feira que se consolida como um espaço importante de aproximações inusitadas. Destaco o trabalho impecável também de Bernardo Mosqueira na curadoria do “Mirante”.

Bianca Coutinho Dias é ensaísta, psicanalista, pesquisadora, crítica de arte e curadora. Especialista em História da arte pela FAAP, mestre em estudos contemporâneos das artes pela Universidade Federal Fluminense, doutoranda em memória social na UNI- RIO. Escreve sobre artes plásticas, cinema, literatura, psicanálise e sobre tudo mais que pode movimentar e reinventar o mundo.